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Da Psiquiatria à Psicanálise : a sociedade contemporânea, as doenças mentais e a necessidade do alívio imediato para as dores emocionais

Em virtude das redes sociais e do acesso fácil à informação, na contemporaneidade, o hábito de rotular doenças e atribuir -se um autodiagnóstico após pesquisas rápidas na internet se tornaram um hábito entre a maioria das pessoas. Acompanhando os avanços da medicina e das descobertas científicas por meio da internet e outros veículos de informação, mesmo os indivíduos menos escolarizados já estão familiarizados com termos que antes estavam bem restritos ao vocabulário técnico psicanalítico e psiquiátrico: narcisismo, complexo de inferioridade, mecanismo de defesa, neurótico, psicótico. Esses termos presentes nas falas rotineiras entre as pessoas e são utilizadas muitas vezes, em um senso comum, sem um conhecimento aprofundado acerca de seus significados.

Se por um lado, a informação trabalha a favor de quem a consome, por outro, quando mal elaborada e compreendida, torna-se uma arma perigosa de rotulação e explicação da realidade da qual o sujeito está inserido. Nesta perspectiva, percebe-se que há um aumento pela busca dos profissionais considerados vinculados à “saúde mental” no sentido não somente de encontrar explicações e diagnósticos, mas principalmente, para sanar e de modo tão rápido quanto possível, os sintomas e patologias que de algum modo interferem diretamente na qualidade de vida daquele que busca pela ajuda. Dentre os profissionais dessas áreas de tratamento da saúde mental, é notório o aumento expressivo pela busca aos consultórios de psiquiatria, uma vez que, é através dos profissionais da medicina (psiquiatria e neurologia) que a “solução “ mais rápida de tratar o quadro é encontrada : a intervenção por medicamento.

Vivemos em uma sociedade cada vez mais imediatista e materialista, que busca, incansavelmente pela satisfação, pela felicidade e pelo caminho mais curto rumo ao sucesso. Quando o assunto se estende para as dores na mente e na alma, a perspectiva adotada segue o mesmo padrão: via de regra, o sujeito deseja aliviar ou eliminar o sintoma que incomoda ou impede que viva melhor, entretanto de maneira indolor, rápida e superficial, onde o menor esforço seja encontrado e o caminho seja curto para alcançar rapidamente o resultado desejado. Nesse sentido, tomar uma medicação para ser mais atento, menos ansioso, mais disposto, mais calmo ou menos hiperativo parece ser uma solução irresistivelmente tentadora.

A questão que há de ser levantada é: considerando que a origem do quadro de sintoma não nasceu no corpo e não é alimentado pelo corpo, mas sim pela mente, emoções e experiências vividas pelo sujeito, como a psiquiatria pode solucionar ou tratar de modo satisfatório, complexo e integral um problema emocional/mental com medicação,  sem considerar que há uma tríade formando esse indivíduo : corpo- mente- espírito ? É incontestável que os produtos farmacológicos representam um significativo e imenso avanço da ciências no que tange às doenças mentais e quadros neurodivergentes, entretanto, observa-se em nossa sociedade que a psiquiatria , quando utilizada como único meio de tratamento em casos severos como depressão ou ansiedade generalizada, produz uma intervenção no sintoma sem alcançar a causa (quando esta não é fruto de uma causa meramente fisiológica), uma vez que a medicação, como única intervenção médica e terapêutica, não capacita o sujeito a lidar com suas dores, mas apenas a anestesiá-las.

Quando se compreende o ser humano para além da materialidade, torna-se inquestionável a necessidade de se inserir ferramentas, recursos e auxílios que também alcancem as emoções e as explicações que deram origem ao sofrimento do paciente e, concomitantemente, a importância da fé e da espiritualidade como ferramenta capaz de ressignificar os eventos e as dores e oferecer um caminho de esperança e propósito para prosseguir. A religião sem dúvida, exerce papel de suma importância e relevância para alicerçar e auxiliar um indivíduo em sofrimento cuja intervenção medicamentosa já tenha sido iniciada. A tríade corpo, alma e espírito requer “alimento” nas três áreas para que o homem possa encontrar um caminho de plenitude rumo ao autoconhecimento e cura de suas enfermidades mentais.

Há na literatura científica diversos artigos publicados que atestam para o fato de que a fé mediante um quadro clínico de saúde comprometida é capaz de direcionar e fortalecer o paciente que, em muitas das vezes , encontra a cura. Nesta perspectiva, a questão acerca da psiquiatria e a intervenção medicamentosa levantada anteriormente, remete-nos à uma resposta óbvia: a totalidade do ser humano passa pela sua tríade e portanto, exige-se algo além da materialidade, levando em conta que a psicanálise/ psicologia bem como a religião , quando vistas como aliadas ao tratamento psiquiátrico será o caminho indispensável e mais completo para auxiliar de modo satisfatório um indivíduo que esteja padecendo de alguma patologia mental. Ao que parece, a abertura da medicina para essa complementação à sua intervenção ainda gera controvérsias.

Ainda é presente e com número expressivo no meio científico, a resistência ao que foge do material, sendo a fé ainda vista por muitos, como uma oposição à razão e à própria ciência. Na mesma perspectiva, ainda é possível encontrar, sem dificuldade, psiquiatras que resistem em encaminhar seus pacientes para uma terapia entendendo que cabe tão somente ao meio científico e médico, identificar , diagnosticar e tratar das patologias mentais. Resta aos que trabalham nas áreas que estão para além da ciência, continuarem a dar sua contribuição, respaldando-se através de pesquisas, dados e estudos que possam corroborar para a real e fundamental importância da psicanálise e da fé na jornada do homem que busca tratar de sua saúde mental de forma ampla, complexa e plena.